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CORONAVÍRUS - 08/04/2020

Em artigo científico, Mandetta consolida posição por isolamento social

Em artigo científico, Mandetta consolida posição por isolamento social

"Ciência, ciência. Não vamos perder o foco. Ciência, disciplina, planejamento, foco", disse, enfaticamente, Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em entrevista coletiva na noite de segunda-feira (6).

Mandetta colocou no papel suas palavras e assinou, com sete pesquisadores, um artigo científico no qual consolida sua posição em defesa do isolamento social contra a Covid-19, medida que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contesta.

"O isolamento social é a medida que precisa ser sugerida logo de início para que seja possível achatar a curva epidemiológica com o menor impacto econômico possível", diz o artigo, publicado nesta terça (7) na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

Caso o plano funcione e o isolamento seja efetivo, com o funcionamento apenas de serviços essenciais, o impacto econômico pode ser mitigado, dizem os autores.

Segundo o artigo, o Brasil tem seguido as recomendações da OMS e deve dar atenção a adaptações que sejam necessárias para a realidade do país. Um exemplo é a estrutura populacional composta principalmente por jovens adultos e a alta prevalência de doenças como obesidade, tuberculose, diabetes e hipertensão.

"Portanto, é potencialmente importante que a população jovem com doenças e coinfecções não seja negligenciada", afirmam os autores, que são pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, da Fundação Oswaldo Cruz, Universidade do Estado do Amazonas, Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado e profissionais do Ministério da Saúde.
O texto também não descarta, inclusive, a decretação de "lockdown" em determinadas áreas do país, medida que permitiria o uso de forças de segurança para evitar a circulação de pessoas.

Ao determinar a importância de políticas de distanciamento, inclusive com medidas mais severas, se necessárias, o documento assinado pelo ministro consolida um distanciamento da visão que Bolsonaro tem sobre o assunto.

O presidente defende o que chama de "isolamento vertical", direcionado somente aos grupos de risco da Covid-19 (idosos e pessoas com doenças crônicas). A medida, contudo, não encontra respaldo de autoridades como a OMS (Organização Mundial da Saúde). Ideia semelhante foi abandonada no Reino Unido, que, algumas semanas após adotar a medida, tem mais de 50 mil casos e um número de mortes que ultrapassa 5.000.

Bolsonaro também tem desobedecido as orientações de distanciamento social. No último domingo (5), ele se reuniu com grupos religiosos que estavam em frente ao Palácio da Alvorada para o dia do jejum nacional convocado por ele mesmo. O presidente abraçou simpatizantes, apertou suas mãos e posou para fotos ao lado deles.

Um dos problemas do isolamento seletivo está no fato de que, mesmo que a doença mate poucos jovens, eles continuam sendo afetados e podem precisar de ajuda de aparelhos para respirar, sobrecarregando o sistema de saúde e potencialmente elevando o número de mortes evitáveis.

Por isso, distanciamentos mais abrangentes buscam diminuir a quantidade de pessoas que precisam, ao mesmo tempo, do sistema de saúde.
Além disso, os mais jovens que circulam pela cidade podem contrair o coronavírus e passar para idosos e pessoas de grupo de risco que estejam em casa.

Um levantamento dos dados mais recentes do IBGE, de 2015, mostra que 25% dos brasileiros acima dos 60 anos (7 milhões de 29 milhões) vivem com outros três ou mais moradores, o que indica risco de contágio mesmo dentro de casa. Os demais moram com até duas pessoas (60%) ou sozinhos (15%).

As casas cheias são mais comuns entre os idosos pretos e pardos, que ganham até um salário mínimo por mês e habitam o Norte ou Nordeste do país. A compilação foi feita para o jornal Folha de S.Paulo pelo recém criado Observatório Social da Covid-19, que reúne pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Mesmo defendendo o distanciamento social, o ministério já elabora um plano de transição para uma fase mais branda de isolamento destinado a estados e municípios cuja quantidade de casos confirmados do coronavírus não tenha causado impacto severo no sistema de saúde. A mudança está programada para começar no dia 13 de abril.

No artigo científico assinador por Mandetta, também há uma crítica a um erro de avaliação da OMS no risco representado pelo novo coronavírus. "É importante notar que em 27 de janeiro a OMS admitiu um erro significativo relacionado à classificação de risco da Covid-19." Naquele dia, a organização passou a considerar que o novo coronavírus representava risco global "alto". 

Contudo, nos dias anteriores, o risco era considerando como "moderado".

"Isso pode ter impedido intervenções internacionais específicas em tempo hábil e pode ter resultado em um aumento do número de casos na China e na expansão da doença para outros países, como o Brasil", afirmam os autores.

O artigo, em suma, faz um balanço do que foi feito até o momento pelo governo, reafirma posições já declaradas pelo ministro e aponta o que se espera para os próximos meses de epidemia.

"Apesar de o Brasil estar tentando implementar medidas para reduzir o número de casos, principalmente com o uso de isolamento social, é esperado o aumento nos casos nos próximos meses", diz o documento, citando modelos matemáticos segundo os quais o vírus pode continuar a circular pelo país até o meio de setembro, com picos de casos em abril e maio.

O texto também ressalta que o outono está chegando e que nessa estação e no inverno a incidência de doenças respiratórias aumenta.

O H1N1 e a zika também são lembrados no artigo como um "legado de como lidar com epidemias".

Por fim, o texto ainda fala sobre a rede descentralizada de Lacens (Laboratórios Centrais de Saúde Pública) responsáveis por resultados de testes para coronavírus e sobre os laboratórios que produzem tais exames.

As preocupações com a falta de testes, de leitos de UTI e de respiradores, e com uso de máscaras pela população também estão ali. Os autores afirmam que a capacidade de testagem pode aumentar em breve devido a contribuição de iniciativas privadas e da academia.B NEWS

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